quarta-feira, 28 de novembro de 2012

2012 Um ano de comemorações

Ilustração minha, auto-retrato da comemoração pelo tetra, na casa do casal  de amigos
Cleyton e Fernanda Castelo Branco, no dia 11 de novembro de 2012.




Eis que o time das vitórias dramáticas, cardíacas, de gols derradeiros nos minutos finais da peleja, acabou sendo campeão com 3 rodadas de antecedência. Com isso, a conquista me pegou de surpresa e bem no meio de tanto trabalho, de modo que o blog Cultura Tricolor não teve como ser atualizado e cometeu o pecado de deixar passar em branco esta nossa última conquista. Começo hoje e devagar, a corrigir este erro imperdoável, pois os nossos guerreiros merecem todas as nossas homenagens. 
Em meio a um congresso em São Paulo, acabei vendo o jogo na casa de um super simpático e hospitaleiro casal de amigos paulistanos, ela, corinthiana, e ele, São paulino. O flagrante de mim mesmo, que reproduzi em desenho (acima) reflete um momento que mostra sua imensa paciência e delicadeza. Abriram a janela para que eu pudesse extravasar e berrar o meu: "tetra-campeão" para a vizinhança. Acabado o jogo, fomos, eu e a minha companheira Roberta de Freitas direto pro aeroporto. Chegando ao Rio, fui evidentemente às Laranjeiras, recepcionar os guerreiros, cujas fotos, preciso receber do meu irmão Celso Taddei  que me acompanhou naquela noite emocionante e que aparece nas outras ilustrações, flagrantes das comemorações pelo carioca e pelo brasileirão. 
Saudações tricolores e que venha o 32º carioca, o penta brasileiro, a Libertadores e o Mundial. Só! 

A Classe Teatral Tricolor comparece no Engenhão, parando pra ver mais um show do nosso tricolor:
Meu irmão Celso Taddei, Alfredo Boneff e Carla Faour na torcida teatral do Fluzão.

Celso Taddei, eu e Gláucio Gomes "bebemorando" mais um título no Cervantes, com direito à chope na pressão e sanduíche de Filé com queijo e abacaxi.  


   


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Quando o profeta falhou


Foto de arquivo do Globo. Nota-se que o fotógrafo registrou o momento exato do apito final.
Marcial sobe pra encaixar uma cabeceada do tricolor dentro da área, enquanto os demais jogadores rubro-negros erguem os braços para comemorar a defesa e o final da partida.

15 de dezembro de 1963.  Uma partida que entraria para história pelo recorde de público em uma partida de futebol entre dois clubes. Uns falam em 170 mil, outros em 177 pagantes, alguns garantem que passaram de 200 mil. Talvez nunca venhamos a saber ao certo.
Infelizmente essa partida entraria para história também por outro motivo que não foi lá muito agradável para nós. Bem, não foi nada agradável, aliás. Pela primeira vez na história, o Fla iria nos vencer numa final de campeonato. O carioca de 63. Vencer não é bem a palavra, já que jogo terminou 0x0, mas como eles tinham chances de empate, contabiliza-se uma vitória para eles. De lá pra cá, já se vão quase cinquenta anos e eles só voltaram a repetir o feito só mais duas vezes.
Mas por que num blog voltado para nossa torcida, a história de uma derrota? Por vários motivos. Primeiro porque somos uma torcida fidalga, que ao contrário das demais, sabemos reconhecer os méritos dos adversários. Segundo, porque podemos nos dar ao luxo, já que temos o triplo de conquistas em cima deles. Terceiro para mostrar como o futebol é surpreendente. porque mesmo as conquistas escritas há seis mil anos podem sofrer um acidente e ter seu destino mudado por um detalhe. Foi assim, pelo menos, que Nelson se esquivou na crônica após a derrota, e após ele ter anunciado na crônica anterior que o profeta anunciara: "Fluminense campeão de 63". E, por fim, porque nem só de conquistas e alegrias, se vive a História. Vejam a nossa derrota em 50, quantos livros, crônicas, filmes já não renderam a nossa tragédia nacional! Grandes times vivem também  de suas derrotas, mas só os gigantes tem a grandeza de preservar sua memória.

Semana de Fla-Flu
Nesta crônica publicada n'O Globo no dia 13 de dezembro daquele ano, Nelson fala da euforia antecipada da torcida rubro-negro, tomando o futuro diretor da TV Globo, Walter Clark como exemplo. "Ainda ontem encontrei, no posto 6, o Walter Clark. Nunca vi ninguém tão Flamengo! Pois bem: _ e o W. C. só pensa em Fla-Flu."

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"Assim que me viu, ele me arrastou para um canto. Conversamos na varanda da TV Rio, diante do mar." Naquela época, Nelson participava na época da famosa mesa redonda esportiva, criada pelo Walter para a TV Rio, com o nome de Grande Revista Esportiva, e mais tarde, já na Globo, passaria a se chamar Resenha Facit. ( http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-236422,00.html )

Sobre Nelson e a resenha esportiva:  http://www.youtube.com/watch?v=TlOBVe6yE80
Prosseguindo, Nelson fala do entusiasmo juvenil de W.C., que lhe confidenciava a festa que estava arrumando para comemorar o campeonato. "(...) vai comemorar a vitória com busca-pé, desfile, bombinhas, fogos diversos. Comprou um automóvel branco, nupcial, imaculado, forrado de arminho. E esse carro de noiva vai puxar a passeata. Pensa, também, numa charanga wagneriana pra dar o tom alto á comemoração."
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"Eu ouço o W. C. e calo. Mas há qualquer coisa de suicida nessa alegria prévia. Amigos, sempre que vai estourar uma catástofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo e córneo."  "Eis o que me pergunto: _ com suas comemorações antecipadas, o Walter Clark não estará arranjando a sua Hiroshima particular?"
"Mas vejam a dupla experiência que está reservada ao Walter Clark: _ ele hoje canta a vitória rubro-negra, para domingo chorar a vitória tricolor."  
"O profeta já anunciou:_Fluminense, campeão de 63"          
Curioso como Nelson passa a ele mesmo se empolgar com a "perigosa" empolgação do torcedor adversário .Nelson acaba transformando o "já ganhou alheio no próprio Já ganhou".
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Dito isso, pulemos o jogo, em que o placar terminou do mesmo jeito que começou. Jogo "oxo".
Ou por outra, falemos do jogo a partir da crônica posterior do grande dramaturgo, publicada no dia seguinte à partida. Sem medo de entregar os pontos, Nelson não perde a pose. "Amigos, ao terminar o grande Fla-Flu , o profeta tratou de catar os trapos e saiu do Maracanã, mas de cabeça erguida. Era um vencido? Jamais. Vencido como, se temos de admitir esta verdade límpida e total: _ o fluminense jogou mais! Não cabe, contra a evidência de nossa superioridade, nenhum argumento, sofisma ou dúvida. " (...) " Alguém dirá que o profeta não previa o empate. Exato. Mas vamos raciocinar. Houve lances, no fla-Flu que escapariam à vidência até de um Maomé, até um Moisés de Cecil B. de Mille. Lembro-me de um omento em que Marcial estava batido irremediavelmente. O arco rubro-negro abria sete metros e quebrados. E que fez escurinho? Enfiou abola na caçapa? Consumou o gol de cambaxirra?" Simplesmente Escurinho levantou para Marcial. Deu a bola na bandeja, como se fosse a cabeça de São João batista. E eu diria que nem Joana D'arc, com suas visões lindas, ou Maomé, pendurado no seu camelo, ou o Moisés de Cecil B. de Mille, do alto de suas alpercatas - Podia imaginar tamanha ingenuidade. 
"E tem mais. Os profetas de ambos os sexos jamais poderiam contar com a trave. No sgundo tempo, Escurinho mandou uma bomba. nenhum gol foi tão merecido. Pois bem: vem a trave e salva. " 
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A crônica de Nelson não é só lamento., Exalta a torcida rubro-negra, com um certo encanto de observador da cidade: " à saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão. mesmo que eu fosse um Drácula, teria de ser tocado por essa alegria que ensopa, que encharca, que imunda  a cidade. Não sei se oi time do Flamengo, como time, mereceu o título. Mas a imensa, a patética, a abnegada torcida rubro-negra merece muito mais. Nota-se um tom ambíguo neste elogio, Algo como uma observação divertida, talvez debochada. Frisa-se também, a parcialidade marcante (e assumida) que já imperava por esses tempos  na crônica esportiva.  Vimos em outros posts do blog, como Henfil tb já tirou sarro na derrota de seu Flamengo para o rival que mais lhe incomodava: nós.

Mas como Nelson também não era de dar o braço a torcer, (vide o episódio: "o video-tape é burro", no link acima) vale observar aqui como ele encerra de forma magistral sua crônica. 
"Amigos, eu sei que os fatos não confirmam a profecia. Ao que o profeta pode responder: _ "Pior para os fatos!". É só.                          

Canal 100:
http://www.youtube.com/watch?v=_uBeLOrNay4 (tricolores, ouçam só até começar aquele hino "detestável"). 

Ficha Técnica:
Ficha técnica: Flamengo 0 x 0 Fluminense.
Decisão do Campeonato Carioca de 1963.
Data: 15/12/1963.
Local: Maracanã, Rio de Janeiro/RJ.
Fluminense: Castilho; Carlos Alberto Torres, Procópio, Dari e Altair; Oldair e Joaquinzinho; Edinho, Manoel, Evaldo e Escurinho. Técnico: Fleitas Solich.
Flamengo: Marcial; Murilo, Luís Carlos, Ananias e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo. Técnico: Flávio Costa.
Árbitro: Cláudio Magalhães.
Público pagante: 177.656 (o maior da história em jogos interclubes no mundo).
Público presente: 194.603 (o maior da história em jogos interclubes no mundo).
Renda: CR$ 57.993.500,00 (recorde histórico na época).
Fonte: http://jornalheiros.blogspot.com.br/2009/08/recordar-e-viver-o-fla-flu-de-1963.html

domingo, 21 de outubro de 2012

Afastando o "Já ganhou".

"Amigos, o "Já ganhou" é um resultado de alma muito brasileiro. Quem não se lembra de 50? Entramos por um cano deslumbrante, e por quê? Justamente, porque o Brasil "ganhou antes" e não na hora."
Adivinham a autoria? ...Pois não dou três segundo pra pensar: Nelson Rodrigues, óbvio!
Provavelmente nunca saberemos, no entanto, se foi o nosso Nelson, "padrinho emocional" que motivou este meu humilde blog, o responsável por perpetuar este nobre espírito tricolor de saber aguardar o resultado, ou se Nelson já se identificara com esse comportamento quando ainda torcia pelo clube, de calças curtas, à distância, através dos relatos dos irmãos.
Esse comportamento combina perfeitamente com nosso longo histórico de vitórias dramáticas, cardíacas, nos minutos finais, empenhando arrancadas hercúleas. Há momentos na história de um clube também que escapam à tradição. Há momentos em que pagamos pela soberba, pelo peso do favoritismo. Peço perdão ao amigo tricolor de trazer más lembranças, mas é preciso não esquecer as derrotas pra não repetir o erro corriqueiro no futebol...Bragantino, em 91, São Caetano, em 2000, Paulista, em 2005, LDU, em 2008. Caímos de pé, nesta última, há de se frisar. Não acredito, entretanto, que este time que está aí se deixe levar  
pela euforia coletiva. Muitos que estão aí já participaram da grande revolução de 2009, quando ousamos desafiar e vencer os 98 % de chances de rebaixamento, saindo "do caos", não "para a liderança", mas para o título do ano seguinte. Todo mundo ali - jogadores, dirigentes e comissão técnica - sabe bem  que no mundo do futebol, milagres são possíveis e que o maior erro é não considerar a possibilidade de derrota.
Nossa torcida tb parece bem consciente... comemorando jogo a jogo, mas evitando o "já é campeão". Aquele notório e perigosíssimo "já é campeão"  que o "digníssimo" Renato Maurício Prado, do Globo, anda pregando em sua coluna. Curioso que se observarmos que logo ele, que esteve sempre dizendo que o Flu não vinha jogando nada, contado com a sorte de campeão, vem agora com esse "merecidíssimo" tetra campeonato... "Sinceridade"? Será que ele se venceu pelos números da campanha? Ou simplesmente adota uma estratégia "secadora" para tentar contagiar nossa torcida e o time de Abel?

Mas este "já ganhou" não combina com a torcida tricolor. Tudo bem que, motivada pela virada sobre a Ponte Preta nos minutos finais, chegou a ensaiar um "É campeão!"... mas passada a embriaguez momentânea da batalha vencida, todos trataram de pisar os pés no chão... com as velhas sandálias franciscanas.
Seja qual for o resultado de mais tarde, a imagem que quero passar da torcida tricolor é somente a da imagem histórica, do apoio de nossa torcida ao time de guerreiros, que realmente lutaram até o fim.

Continuemos com esse espírito. Lutem até o fim!          

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Seleção do Fluminense de todos os tempos (feita em 2006).

Ilustração e montagem de 2006

A ilustração acima foi feita como um teste para um projeto editorial que acabou não indo para frente. Como foi feita em 2006, não pôde compreender heróis de grandes conquistas que vieram depois, como Conca, Deco ou Fred.

Franciscana humildade e vitórias cardíacas.

Vejam bem o que estão dizendo de nossa última vitória...frisam os erros de arbitragem... curioso que não vemos tanta empolgação quando o prejudicado somos nós. Outras tantas vezes tb dizem que o adversário  pressionou o tempo todo e que nas raras oportunidades que tivemos, marcamos. Um time "aplicado", cirúrgico", que joga "com o resultado"...pois bem, contra a Ponte, em São Januário, o jogo foi um tanto diferente. Sofremos um revés inacreditável logo no primeiro minuto de partida. Um daqueles chutes no ângulo que nem nosso grande Cavalieri conseguiu defender, apesar do esforço, e de ter chegado bem perto disso. Um milímetro acima, e o travessão talvez salvasse aquele gol. Mas o gol sofrido empurrou o time pra frente. E, como a bola passava riscando, mas insistia em não entrar, o que se viu foi um massacre... enquanto a Ponte só se preocupava em se defender e em fazer cêra... num interminável festival de cai-cai, sob as barbas do mesmo fraco juiz que acusam de nos ter ajudado. Domingo foi a vez do goleiro deles fazer milagres... e quando o jogo ia se aproximando do fim, conseguimos os dois gols que garantiam os três pontos. Com erros de arbitragem... pode até ser, embora a falta seja discutível. O pênalti , a meu ver, não foi. Mas se a ideia é contabilizar erros a nosso favor, seria justo que se metesse na contagem, inúmeros erros gritantes que nos prejudicaram, como no gol estranhamento anulado (o bandeira só levantou a bandeira, depois que o Fred já havia passado o goleiro e mandava a bola para o gol vazio). Eu disse que seria justo, sim, mas na verdade, acho melhor que não o façam. Será bom para nós, que desmereçam nossa trajetória, por mais impressionante que seja em números. Disse que será bom e já explico.                


"Amigos, cabe agora ao Fluminense fingir-se de morto." afirmou certa vez  Nelson Rodrigues em dezembro de 70, dias antes da conquista do primeiro brasileirão. Já falamos em outros momentos da importância da humildade nas nossas grandes conquistas. Boa parte de nossa sala de troféus se deve à força de um conjunto, à união, à determinação, mas sobretudo, à humildade. Creio que o momento atual é mais do que oportuno a resgatar uma crônica do velho dramaturgo tricolor, dada a nossa trajetória. Vejam bem... é bom que minimizem nossa trajetória histórica. Eu, desde já, quero agradecer imensamente à grande imprensa esportiva carioca (sem ironia), do jornal e da TV, bem como nossos adversários por constantemente frisar os erros de arbitragem a nosso favor, ou a pressão sofrida em muitos jogos. Como ensina nosso trovador maior, é preciso sempre vestir as sandálias da humildade e "fingir-se de morto". Deixemos que digam, pois ajuda a afastar o ameaçador "já ganhou". O Fluminense não é o time do "Já ganhou"...é o time do "Eu acredito". O "Já ganhou" é que derrotou nossa seleção em 1950. Naquela mesma copa, a seleção começou sem tanto crédito... com as goleadas sobre a  Suécia e a Espanha, na fase final, que passamos a de fato, "antecipar" a comemoração... antecipamos a comemoração para adiar a primeira conquista.
Aquarela inspirada em fotografia de José Medeiros, registrando um flagrante da final da Copa de 50. Brasil perdia para o Uruguai diante de 200 mil pessoas que já se consideravam campeãs mundiais desde a goelada contra a Espanha. O "já ganhou"  se transformou no maior trauma futebolístico do país.




O Fluminense tem um histórico um tanto diferente do que vemos no time atual. Hoje em dia todos falam do elenco tricolor, repleto de craques no campo e no banco. Mas temos uma peculiaridade nossa. Somos do time que mais vezes foi campeão com equipes desacreditadas por adversários! Desde o título de 51, quando com um time de desconhecidos o Flu ia batendo os rivais pela contagem mínima... "Líder por uma semana", ironizava Nelson a piada dos rivais pelos botequins da cidade: "daí pra frente o Fluminense foi sempre o líder por uma semana." Aquele time foi campeão carioca e mundial. Alguns dos desconhecidos eram Castilho, Telê e Didi... "Timinho ?" Jamais! Mas foi assim que aquele time entrou pra história.


Muitas outras vezes, a coisa se repetiu... em todas as décadas. Foi assim em 59, em 69, no brasileirão de 70, em 83, no carioca, 84 no segundo Brasileirão, e novamente no carioca de 95. O Vasco era o então Tri-campeão, lutava pelo tetra,o Flamengo havia se reforçado para as comemorações de seu centenário. com contratações  de peso, como o campeão do mundo Romário, saldando sua chegada com um desfile pela cidade em corpo de bombeiros, e o nosso velho lateral esquerdo Branco. O Botafogo que viria a ser o campeão brasileiro no mesmo ano, também havia se reforçado, contava com Túlio em sua melhor fase, Donizete (o Pantera), com uma zaga de respeito: Gottardo e Gonçalves. O Fluminense havia feito contratações pontuais de "ilustres desconhecidos". Sua aposta mais famosa era o polêmico Renato Gaúcho, que já vinha se desgastando em passagens mornas por outros clubes brasileiros e muitos davam sua carreira como encerrada. Perguntei a amigos em quem apostavam para conquistar o carioca. Ninguém lembrou do Fluminense. Graças a Deus. Fomos campeões depois de 10 anos, num dos mais emocionantes campeonatos cariocas de todos os tempos.

Voltando à crônica de Nelson, às vésperas da conquista de 1970, o dramaturgo nos conta que numa roda de amigos, fez a pergunta: Quem ganha o Robertão (Taça Roberto Gomes Pedrosa, como era chamada a principal disputa nacional, reconhecida há dois anos como brasileirão)?" No que..."Houve uma unanimidade feroz: _ O Cruzeiro. "
" E todo mundo pôs-se a entoar hinos ao time de Tostão. Era o melhor do Brasil. Houve um momento em que, no fundo de minha timidez, ousei a pergunta: '_ E o Fluminense?' A resposta foi uma gargalhada. (...) E, então, um dos presentes tratou de demonstrar o que lhe parecia ser uma verdade inapelável e eterna: o Tricolor não tem um craque, um único craque." Desmereciam Félix, o lateral Marco Antônio, talvez por ter sido reserva de Everaldo, e desprezaram igualmente o diabo louro Samarone, Lula, Flavio, enfim...
Acontece que na época, todos os grandes tri-campeões de 70 e outros mais que tinham futebol de sobra para estarem entre eles, e que já ganhavam notoriedade. Basta ver Pelé, Carlos Alberto Torres e Edu, no Santos; Tostão, Piazza e  Dirceu lopes, no Cruzeiro; Jairzinho no Botafogo, Leão e Ademir da Guia, no Palmeiras; Rivelino, no Corínthians; Gerson no São Paulo, Everaldo no Grêmio, Carpegiani no Inter e Dario no Atlético. Haja fôlego! Em vista do arsenal adversário, quem haveria de acreditar na conquista tricolor...além dos próprios tricolores? Mas em 20 de dezembro daquele ano, o Fluminense antecipava o presente de natal da nossa querida torcida.


       
Falamos de 1951, de 1995, de 1970, e deixei pro fim o primeiro título do meu Fluminense que testemunhei. Também em 1983 fomos desacreditados. O Flamengo vinha com um time que acabava de se sagrar tri-campeão brasileiro, o Vasco disputava o bi, com o timaço encabeçado pelo atual presidente Roberto Dinamite, no auge de sua carreira. O Botafogo, de Baltazar, o Bangu, bancado pelo bicheiro Castor de Andrade, vinha de Cláudio Adão, Marinho e Arturzinho, que apesar de não ter vencido nem o primeiro, nem o segundo turno, foi o que mais acumulou pontos nos dois. O Fluminense, que não era campeão desde 80, vinha de campanhas mornas, manteve alguns jogadores como o lateral Aldo, o zagueiro Duílio e o meia Delei, promovera jovens valores da base como o goleiro Paulo Victor e o zagueiro Ricardo Gomes, e contratara promessas ainda desconhecidas do Sul como Branco, Jandir, Leomir, Tato e uma dupla que já fazia certo sucesso no Atlético-PR, Washington e Assis. Quase ninguém sabia que esse time formaria uma geração vencedora, que conquistaria o segundo brasileiro, e o tri estadual, todos de maneira emocionante, com direito a grandes decisões contra Flamengo (a primeira delas com um gol ao apagar os refletores), Bangu (de virada, com o segundo gol aos 42 do segundo tempo), e  Vasco (na primeira final de um campeonato nacional entre cariocas). E o Fluminense venceu os três primeiros certames que eu comecei a acompanhar, frequentando ao nosso querido Maracanã.


   É, portanto, fundamental esse constante desacreditar no nosso tricolor. Não se enganem quanto aos pontuais elogios. Só recebemos elogios e vãs tentativas de nos "secar" com afirmações rubro-negras de que já somos campeões ( lê-se Renato Maurício Prado), como se ele fosse escrever o mesmo, caso o seu time estivesse na mesma situação. Pois lembremos a ele, que quem gosta de antecipar comemorações e ficar com o grito travado na garganta não somos nós. Ao mesmo tempo, RMP adora ressaltar as supostas ajudas de arbitragem, a tal "sorte de campeão", a pressão adversária a cada peleja. Deixemos que falem, que desdenhem... por mais que gozemos agora de uma invejável vantagem de 9 pontos, todos sabemos que nada está ganho, como todos sabemos que as vitórias tem sido suadas. É assim e tem que ser assim! Nossas vitórias são sempre cardíacas.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Homenagem a Félix.

Felix em ação pelo Fluminense. 

Em vista do triste falecimento do grande goleiro Felix, que marcou uma carreira de conquistas no Fluminense e na seleção brasileira, além de figurar no rol dos 5 grandes goleiros da história do clube (Marcos carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho e Paulo Victor completam a lista, que está prestes a aumentar com o atual Diego Cavalieri), o blog Cultura tricolor não poderia deixar de dedicar um post a este grande goleiro que tão honradamente fechou o arco tricolor durante quase uma década. Outro dia foi o colunista rubro-negro Renato Mauricio Prado quem dedicou sua coluna a Felix, lembrando que chegou a encontrá-lo como vendedor da Eletrolux, após encerrar sua brilhante carreira no futebol, de conquistar seis títulos de campeão carioca pelo Fluminense, além de três taças Guanabara e um Campeonato Brasileiro, em 1970.  Pela seleção brasileira, um título mundial, uma Copa Roca e uma Rio Branco. (vide lista de títulos abaixo).
O Wikipedia nos informa que Felix Miéli Venerando teria nascido em São Paulo, na véspera do natal de 1937. Começou cedo a carreira, se tornou profissional aos 15 anos de idade, defendendo o gol do Juventus da Moca, onde permaneceu até 1955. Estreou na Portuguesa no ano seguinte defendendo a Lusa numa edição  internacional do torneio Rio-São Paulo contra o New Old Boys da Argentina.  



Felix no campo do Fluminense. 


Vendido ao Fluminense por 150 mil cruzeiros em 1968, se consagraria no nosso tricolor das Laranjeiras e seria defendo as nossas cores que garantira a vaga no gol titular da seleção brasileira que traria definitivamente a Taça Jules Rimet para o Brasil. Na coluna do já citado RMP, editor de esportes do Globo, nota-se uma denúncia de uma tremenda injustiça de um jornal, o qual ele não cita o nome, que teria estampado a seguinte manchete após a conquista no México: "Tri-campeões apesar de Felix". Será que fora algum órgão da imprensa paulistana, historicamente especialista em  desacreditar os jogadores convocados de times cariocas (Vide 1994) ?  A injustiça pode ser comprovada se percebermos a atuação decisiva de Felix em jogos decisivos contra Uruguai e Inglaterra, onde fechara o gol brasileiro. Mas felizmente, Felix é muito maior que isso. Seu nome está na história, sua foto integrando fortes equipes nos posteres de campeão do Fluminense e da seleção. 
No sábado seguinte a seu falecimento, por coincidência, em jogo realizado dois dias após o centésimo aniversário do saudoso Nelson Rodrigues, o time do Fluminense prestou uma primeira linda homenagem, com o time inteiro entrando em campo com camisa de goleiro, e o nome de Félix nas costas. A segunda homenagem, viria com dois gols de Thiago Neves, na belíssima vitória por 2x1 sobre o Vasco, em dupla homenagem: Nelson Rodrigues e Félix. 



Fred entra em campo com a camisa de goleiro e o nome de Felix nas costas
(fotos de Globo.com). 
Títulos:
Fluminense
Seleção Brasileira


O time que, com a vitória consagrou a melhor marca em um turno do Brasileirão da fase de pontos corridos. Um dia especial, de luto, mas de homenagens a Felix e ao centenário do nosso maior cronista, completos na última quinta-feira, dois dias antes da partida.  

Abaixo, charge de Henfil com Felix à frente do repórter. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

100 anos de Nelson Rodrigues


Em homenagem ao centenário de Nelson, algumas fotos e ilustrações já usadas em outros posts do blog, e um link especial da homenagem feita pelo Jornal O Globo de hj, periódico em que Nelson trabalhou durante muitos anos!
Saudações tricolores, Nelson!

http://oglobo.globo.com/infograficos/nelson-rodrigues/






terça-feira, 21 de agosto de 2012

"Aquele sutil abraço "


1969. No final do ano anterior, o decreto do AI-5 aumentava a tensão entre oposição e a ditadura militar que se instaurara no país cinco anos antes. Gilberto Gil e Caetano foram-digamos- convidados a se retirar do país. Em Londres, a música "Aquele abraço" enaltece elementos essenciais da cultura carioca, a começar pelo Cristo Redentor, de constantes "braços abertos" sobre a Guanabara.; mas discretamente manifestava a tristeza daqueles que não podem retornar por tempo indeterminado à sua terra natal, por discordância política. Um lamento pela perda da liberdade, que os afastava dos amigos e familiares, além dos pequenos prazeres da cidade, da praia, do calor tropical,  do carnaval, do futebol. Falando em futebol, quem conhece a letra da música "Aquele abraço", gravada no lado B de Gilberto Gil 1969 (disco lançado pela Philips, neste ano, também conhecido por Cérebro Eletrônico, primeira faixa do Lado A)  sabe muito bem que ele homenageia um único clube da cidade, o de maior torcida, que aliás, não é o time do compositor: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraço!" Homenageia o futebol do Rio através da imensa torida rubro-negra, apesar do próprio ser assumidamente tricolor. Será? 




 Gilberto Gil durante seu período de exílio
.
Só que 1969 foi justamente o ano em que o Fluminense se sagrara campeão numa final épica contra o Flamengo, com o gol de Flavio definindo o resultado final depois dos 30 do segundo tempo. Jogo este que mereceu uma das melhores crônicas de Nelson Rodrigues, bem como tiras debochadas de Henfil, recentemente mostradas no blog, junto com imagens do canal 100, ficha técnica e outras imagens.
Pois bem, se rubro-negros alegarem se tratar de mera suposição, temos na manga outro argumento precioso a nosso favor...o Flamengo surge na letra de Gil rimando com qual nome? Realengo. Realengo foi o local onde Gil esteve preso na época em que fora forçado a deixar o país, junto com Caetano.     
Se a rima imediatamente anterior demonstra ironia e procura cutcar o regime sem que a censura pudesse perceber, parece sugestivo que ele quisesse dar uma provocada sutil na torcida rival... uma sutileza digna da elegância tricolor. Neste mesmo blog, basta procurar por Chico Buarque, que veremos outro exemplo de fidalguia, ao agradecer o "gentil presente de grego" dado por Cyro Monteiro por ocasião do nascimento de uma de suas filhas.
Voltando ao Gil, se a intenção foi provocar nossos fregueses de decisões ou não, pouco importa. Importa que na próxima grande final, poderemos cantar após virar um jogo que lhes dêm chance de empate, com um aos 49 do segundo tempo, você pode lembrar de cantar assim: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraaaaçooooo". 

Saudações tricolores!
Abaixo, vocês podem conferir a letra de Aquele Abraço e a lista de músicas do disco no site oficial de Gil.    
http://www.vagalume.com.br/gilberto-gil/aquele-abraco.html

http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=4

Humilde aristocracia de guerreiros.


No último post do blog, o propósito era demonstrar uma perspectiva sobre a torcida do Fluminense, partindo de um humorista assumidamente rubro-negro, que marcou sua carreira pela firme posição política ligada aos valores socialistas, e pelo permanente patrulhamento contra o regime golpista que havia freado o processo de democratização do país . Em suas tiras sobre futebol para o Jornal dos Sports, o Fluminense se transformou no pretexto para cutucar (com arame farpado) a parcela civil elitista, cujo apoio foi fundamental para que se formasse a conspiração militar contra o governo de jango. Vale lembrar que o humor trabalha com ideias caricaturais e generalizantes. Se o Fluminense representava a aristocracia, estava ali, ao lado do botafoguense, o alvo a se almejar. 

Mas no mesmo jornal em que Henfil tinha seu espaço para lembrar o torcedor que ele vivia numa ditadura , um certo Nelson Rodrigues poderia transformar o embate cultural entre cronista e cartunista, um duelo de Titãs, digno dos melhores Fla-Flus de todos os tempos. Basta lembrar que estamos tratando de dois nomes que marcaram cada um a seu modo, transformações profundas na cultura brasileira. E apesar de terem frequentado juntos a redação do JS num período de cerca de meia década, optei por selecionar aqui uma crônica de Nelson bem anterior ao período de Henfil, porque ela traz uma ideia diametralmente oposta a do cartunista, em seu melhor estilo, comparando as emoções do futebol a movimentos revolucionários históricos. Nelson carregava o texto com esplêndidas metáforas caricaturais que acentuavam expressivamente o caráter emocional do velho esporte bretão.  Reparem na crônica de 13 de dezembro de 1959:


"Amigos reparem: _ Há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em "aristocrático clube das Laranjeiras". E eu vos digo: "aristocrático" em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense (...) do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes."


***

" Costumamos desprezar o cartola. mas vamos e venhamos: _ com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza os tapetes, ele tem seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é gostoso de se ver. Há também a família de classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos. 
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, tem, na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante felicidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F. C.  e lá estarão esses heróis de pé descalço."

***
" Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá se vão os pés descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens , em encarnações passadas fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: _os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato. "


Montagem sobre foto 
*** 

" Eu nunca me esqueço de um episódio a que assisti, há muito tempo. O Fluminense acabava de apanhar um banho não sei de quem. Fora uma derrota ignominiosa, que nenhum torcedor esquece. Na saída do campo, em meio a pesado silêncio tricolor, rompeu um berro solitário e altivo: "Fluminense!" Não podia haver nada de mais inesperado do que um grito trinufal no momento da tristeza e da humilhação. Foi bonito, foi sublime! O autor dessa manifestação isolada era um pobre diabo."    


***


"Um campeonato constitui uma soma de fatores. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. nada mais triste do que um time sem ninguém. (...) Mas eu vos digo:_tem razão o Benício Ferreira Filho: _a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara a sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não se vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão. "  

Nelson Rodrigues, trechos retirados da crônica "A incomparável torcida tricolor" publicada no JS, dia 03 de dezembro de 1959. (in: Nelson Rodrigues, Filho (org.) O profeta tricolor: Cem anos de Fluminense: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

A faixa "Lutem até o fim" se tornou emblemática na mesma época em que a apaixonada torcida tricolor eternizou o "time de Guerreiros", que lhe atendeu o pedido. 

***
Como a gente pode ver, a crônica de Nelson parece tão imperecível quanto a paixão tricolor. Ela pode ser comprovada por episódios lapidares em que a nossa torcida tricolor mostrou a sua força. Um dos mais recentes é justamente o período em que estávamos à beira do caos, com os matemáticos estimando em 97, 98, 99,9 % as possibilidades que o tricolor tinha de cair novamente ao calvário da segundona. Pois enquanto as probabilidades de queda não chegassem a 100, essa nossa torcida encheu o Maracanã verdes de esperança, com o sangue vermelho fervendo, numa clara harmonia, branca como a luz do refletor em torno daquele time, exalando a confiança necessária para o time operar o milagre que operou. Aqueles mesmos - por que não? - que Nelson Rodrigues acreditava terem em outras vidas empenhado tochas e invadido o Palácio de Versailles no 14 Juillet de 1789. Esses mesmos, sim senhor,  ousaram desafiar a lógica da estatística e os "idiotas da objetividade" sucumbiram em sua matemática, numa bestificação irrevogável diante do milagre inexplicável. 

 E se não bastasse a ferrenha batalha  hercúlea dos guerreiros na manutenção do time, após viradas mirabolantes, como nos 3x2 contra o Cruzeiro, após terminar o primeiro tempo perdendo por 2x0, o time ainda ousa ser campeão brasileiro no ano seguinte.
Um detalhe curioso... terminado o campeonato, o Jardel Sebba, velho amigo  rubro-negro, de ter sofrido ao meu lado em muitos Fla-Flus no Maracanã (quando me viu sofrer em apenas um), amigo e colega dos tempos de Santo Inácio e hoje grande jornalista da revista Playboy, me passou por e-mail o deboche do rival por termos comemorado um "não rebaixamento": "Se tivessem mais algumas 38 rodadas, quem sabe o Fluminense não seria campeão?" Respondi qualquer coisa simples, na tradicional humildade franciscana, dando-lhe os parabéns pelo título. Pois bem... 38 rodadas depois, invertem-se os papéis. O Fluminense, de fato, conquistava o mais emocionante campeonato brasileiro da era de pontos corridos e o Flamengo escapava do rebaixamento. A diferença é que a nossa escapada se tornou uma luta contra as estatísticas, contra todas as forças. Era preciso o milagre e o milagre veio com muito mais força do que imaginávamos. De um ano ao outro, escapamos do rebaixamento e levantamos um titulo depois de um incômodo intervalo, e depois de muitos "quases".
 Mandei um e-mail ao meu velho amigo, parabenizando-o por seu poder profético.     
Muito devemos ao time, como devemos ao Cuca, técnico do time na arrancada de 2009, mas devemos também muito à nossa torcida, que com o clássico "Guerreiros, guerreiros, time de guerreiros" mostrou que acreditava naquele time, quando todos acreditavam na sua queda, embalou nossas vitórias e contagiou o país com sua paixão incondicional!  

FLUMINENSEEEEEEEEEEEEEEEEE!


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Fluminense no traço de Henfil


Tira de Henfil, de 17 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Fla-Flu de 691969. Num Fla-Flu épico que já rendeu mais de um post no blog e que  inspirou Nelson Rodrigues na crônica Chega de Humildade, o Fluminense se sagrou campeão ao vencer o velho rival por 3x2, com gol de Flávio no final. Lembrados? Então vamos à visão do rubro-negro Henfil para o acontecimento. 

Luta de classes no futebol Como é sabido, a paixão de Henfil pelo Flamengo era notória e estava ligada às suas convicções políticas na ideologia de assistência ao povo e na rejeição aos hábitos da elite. Henfil transpunha à esfera do futebol, a luta de classes, e os discursos ligados à defesa de direitos das massas em oposição às regalias da burguesia.  

Ditadura Militar e a elite no futebol carioca

Dito isso, percebemos na construção do personagem tricolor de Henfil, um personagem afetado, cujos discursos carregavam um caricato preconceito de classe e raça, abusando de expressões em inglês ou francês. Na charge acima, chega a colocar o pó-de-arroz torturando o bacalhau (torcedor vascaíno)  para que ele contasse onde o rubro-negro urubu  havia se escondido na tentativa de fugir de pagar a sua aposta (em geral, botar ou chocar um ovo imenso).  Prestando um pouco mais de atenção na charge, percebemos uma relação usual: 1969, tortura, esconderijo, interrogatório... isso lembra alguma coisa?  Justamente é essa carga pesada que Henfil procurava retratar...neste caso aqui quem tortura é um representante da elite... acredito que seja bem possível que Henfil estivesse sugerindo a participação direta de parte da elite empresarial que financiava a ditadura. Notem bem que não estou acusando Henfil de sugerir que a torcida do Fluminense estivesse ligada aos órgãos da ditadura, mas que ele trabalhava com representações e no universo das charges esportivas, era o Pó-de-arroz e o Cri-Cri (torcedor do Botafogo) que representavam a elite dominante no universo de suas tirinhas.        

Tempos de perspectiva parcial   
Nelson Rodrigues já dizia em uma de suas crônicas que só acreditaria na imparcialidade do sujeito que declarasse que a própria mãe é vigarista. Se ele mesmo nunca fez questão de esconder, mas ao contrário, de declarar seu amor pelo Fluminense, no mesmo jornal, Henfil também pôde manter sua postura pró- Flamengo. Em sua tira, o rubro-negro raramente se dava mal. Quando se dava mal, havia sempre um culpado maior para pagar as suas apostas: o juiz, o técnico, um jogador.
Sobre o Fla-Flu, dignamente vencido por nós, temos nesta charge uma evidência do legítimo chororô rubro-negro... e do bom humor de Henfil, que encontrou em Armando marques o bode expiatório para o revés rubro-negro.     
Tira de Henfil, de 20 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Em todos os cerca de cinco anos que Henfil era a voz humorística do Jornal dos Sports, foram poucas as vezes em que o Fluminense foi mencionado de uma forma que não fosse pejorativa. Uma delas, a de baixo, é de 1973, quando o veterano tri-campeão Gerson foi pôr seu talento em favor de seu time de coração: o nosso Fluzão. Muito se dizia de sua capacidade de fazer longos e precisos lançamentos, que compensavam a disposição física debilitada pelo fumo (Gerson caiu na boca do povo ao fazer propaganda de cigarro, dizendo que gostava de levar vantagem em tudo, criando o ditado popular- lei de Gerson) .      

Tira de Henfil sobre o Gerson, de 08 de abril de 1973. 

Outra ótima de Henfil, que, por um lado, não chega a ser pejorativa contra o Fluminense, por outro, procurava justificar (ou reclamar) de certas derrotas do seu time nos Fla-Flus... "ai, Jesus!".
                                    Tira de Henfil sobre Fla-Flus, de01 de maio de 1973. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

As Tragédias Cariocas, ciclo de leituras em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues

Ilustração minha com design da Roberta de Freitas, 
este é meu trabalho mais recente, de julho de 2012. 

A partir da próxima segunda-feira, na Casa da Gávea começa o ciclo de leituras "As Tragédias Cariocas", quando serão lidas oito peças de Nelson Rodrigues (que faria 100 anos no dia 23 de agosto). Teremos sempre às 21h e sempre às segundas, a leitura de uma das peças teatrais escritas por Nelson, que compõe o que o crítico teatral Sábato Magaldi classificou  como "tragédias cariocas", onde ele entendeu que o autor  explorava o cenário carioca para conduzir suas tragédias.
Muito bem... o que o clico tem a ver com o blog cultura tricolor? Muito. Não apenas pela notória paixão de Nelson Rodrigues pelo Fluminense, mas porque suas peças, volta e meia, faziam menção ao futebol, de alguma forma. Na primeira peça que será "encenada", ou melhor dizendo...lida, na próxima segunda-feira, "A Falecida" tem no jogo entre Fluminense e Vasco, o pano de fundo para o desenrolar da peça, cujo principal protagonista é Tuninho, um fanático cruzmaltino que divide sua preocupação entre seu desempergo, a obsessão fúnebre da mulher e o grande clássico do fim de semana.

Não teremos espaço em todo o conjunto das peças gráficas do evento, para ilustrar cada uma das 8 peças que serão lidas na Casa da Gávea, o que nos levou (minha companheira Roberta de Freitas cuidou do projeto gráfico, enquanto me coube as ilustrações) a buscar uma alternativa mais econômica, onde procurei ilustrar o "universo rodrigueano" de uma forma geral. A homenagem que faço ao futebol, no caso, é o Jornal dos Sports que surge nas mãos de um transeunte paquerado por uma colegial... Notem na primeira página, que a manchete faz nova homenagem ao Nelson e ao nosso querido Fluzão... 

    

Companheiros de luta e de glórias, sou tricolor de coração

 
Ilustração minha de 2009.   
 
Como é o hino do Fluminense? Qualquer criança há de responder sem titubear, cantando os versos da famosa marchinha de Lamartine Babo: "Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão..." Marchinha composta nos idos da década de 1940.
Mas peraí... se o Fluminense foi fundado em 1902 e o hino cantado até hoje nas arquibancadas é da década de '40, qual era o hino do clube, antes da marchinha de Lamartine?

Primeiro Hino Oficial
Para voltar as histórias dos hinos, devemos lembrar do famoso escritor Paulo Coelho Netto, que segundo o artigo de Manel J. G. Tubino, Bruno Castro de Sousa e Rafael Valladão, teria sido o grande incentivador da vida artística do Fluminense, tendo ocupado ainda o cargo de vice-presidnete do clube. Foi também o pai de João Coelho Neto, o célebre Preguinho, multi-atleta que muito honrou a camisa tricolor em vários esportes, além do futebol, o notório importal era um dos grandes defensores do futebol, tendo travado alguns embates intelectuais com Lima Barreto a esse respeito. O já "tricolor de coração" Coelho Neto também dedicou ao nosso Fluminense o primeiro livro sobre a história do clube, lançado por ocasião do cinquentenário do clube, em 1952. Coelho Neto também protagonizara um episódio que ficaria para a história do futebol (ou para o museu de lendas do velho esporte bretão): a dita "primeira" invasão de campo, quando indignado com a atuação do juiz que insistia em inventar pênaltis e a mandar voltar a cobrança até que o adversário fizeesse o gol, num Fla-Flu que acabou anulado.

Capa da edição de 1952, do livro de Coelho Netto.
No destaque da capa, a Taça Olímpica de 1949, prêmio-homenagem concedido pelo C.O.I. para o clube que mais se destacar em todo o mundo, na organização e promoção dos esportes olímpicos. O Fluminense é o único clube da América Latina a ter merecido a honraria.   

Mas voltando à história do hino, foi dele a autoria do primeiro hino oficial do clube. Segundo o mesmo artigo citado acima, Coelho Neto teria escrito a letra sobre música já existente de  H. Williams, It1s a long long way to Tipperary" - canção popular entre os soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial - para o hino que foi cantado pela primeira vez, na inauguração da 3ª sede, em 23 de julho (dois dias após o 13º aniversário de fundação do clube) de 1915.  Não é estranho que Coelho Neto tenha buscado inspiração numa canção entoada por soldados no primeiro grande conflito mundial. Os autores do artigo citam o caráter bélico, bem como valores em voga entre a elite carioca. Vale notar o vocabulário rebuscado, ao gosto da época, e a inspiração no discurso higienista em voga entre a elite nacional, que enaltecia o esporte como símbolo de modernidade e civilidade e que acreditava numa suposta supremacia genética: "Assim nas justas se congraça/ Em torno dum ideal viril/
A gente moça, a nova raça/ Do nosso Brasil !"     

O Fluminense é um crisol
Onde apuramos a energia
Ao pleno ar, ao claro sol
Lutando em justas de alegria
O nosso esforço se congraça
Em torno do ideal viril
De avigorar a nova raça
Do nosso Brasil !

Corrige o corpo como artista
Vida imprime à estátua augusta
Faz da argila uma robusta
Peça de aço onde a alma assista
Na arena como na vida
Do forte é sempre a vitória
Do estádio foi que a Grécia acometida
Irrompeu para a glória

Ninguém no clube se pertence
A glória aqui não é pessoal
Quem vence em campo é o Fluminense
Que é, como a Pátria, um ser ideal
Assim nas justas se congraça
Em torno dum ideal viril
A gente moça, a nova raça
Do nosso Brasil !

Adestra a força e doma o impulso
Triunfa, mas sem alardo
O herói é bravo mas galhardo
Tão forte d'alma que de pulso
A força esplende em saúde
E abre o peito à bondade
A força é a expressão viva da virtude
E garbo da mocidade      

Segundo Hino Oficial 
Como o primeiro hino começava a ser motivo de paródias, rapidamente foi encomendado novo hino. Na perspectiva melódica, uma marcha marcial, de inspiração bélica, também ressaltavam aspectos e valores da aristocráticos, enaltecendo o esporte como símbolo de costumes civilizados espelhados no modelo europeu. De autoria de Antônio Cardoso de Menezes Filho, o segundo hino  também sugerem a noção da crença excludente na raça superior: "Disputamos no campo a vitória/ Do mais forte, mais destro e sagaz!"
Nota-se que os hinos foram compostos por famílias tradicionais que perteciam à nata da sociedade carioca. 

Companheiros de luta e de glória
Na peleja incruenta e de paz
Disputamos no campo a vitória
Do mais forte, mais destro e sagaz!

Nossas liças de atletas são mansas
Como as querem os tempos de agora
Ressuscitam heróicas lembranças
Dos olímpicos jogos de outrora

Não nos cega o furor da batalha
Nem nos fere o rival, se é mais forte!
Nossas bolas são nossa metralha
Um bom goal, nosso tiro de morte

Fluminense, avante, ao combate
Nosso nome cerquemos de glória
Já se ouve tocar a rebate
Disputemos no campo a vitória.

A marchinha de Lamartine
 Das marchas marciais às carnavalescas, a popularização dos hinos dos clubes cariocas tem a ver com uma mudança radical do futebol no cenário cultural brasileiro. A popularização do esporte através da imprensa, das transmissões à rádio, já tirara da prática todo o caráter elitista, que clubes como Fluminense se preocupavam em manter até, pelo menos, a profissionalização na década de '30. Entra em cena, Lamartine Babo, um dos maiores nomes do carnaval carioca, autor de pérolas como "Teu cabelo não nega", "Linda Morena" entre outras tantas célebres marchinhas carnavalescas, é representativo dessa gradual transformação.Os novos hinos dos clubes cariocas foram todos compostos por Lamartine na década de 40.  Como afirmaram Tubino, Souza e Valladão, perde-se o garbo, a pompa, a solenidade, ganha-se em alegria, empolgação, popularização, onde o vocabulário mais coloquial ajuda bastante no processo. Algo semelhante já acontecia na imprensa com intensidade desde a década de '30, em que a linguagem direta e fácil do Jornal dos Sports, se torna o exemplo mais representativo. Os hinos (ou marchinhas) de Lamartine exprimem bem este momento. O artigo já citado, percebe que, por mais que tenha perdido muito da carga higienista, a marchinha de Lamartine ainda mantinha o tom nobre a cavalheiresco: " Fascina pela sua disciplina" ou ainda " Vence o Fluminense usando as fidalguias"... 
 Segundo seu biógrafo, diz o artigo, Lamartine escreveu a letra do hino do Fluminense, sobre música do maestro Lyrio Pannicalli, na antiga sorveteria Americana,  depois ocupada pela garagem do Hotel Serrador, prédio hoje adquirido pela Petrobrás, no Rio de Janeiro.  A primeira parte ressalta a fiorte relação entre torcedor e o clube e seus símbolos, como a bandeira ("Salve o querido pavilhão"), enquanto a segunda parte do hino atribui sentido às cores do clube, reforçando um forte vínculo identitário. 

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor

Vence o Fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias
E vitórias mil

Vence o Fluminense
Com o sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar de emoção o tri-campeão

Vence o Fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol
Da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o Tricolor
 
No Vagalume, a melodia do segundo hino oficial.
http://www.vagalume.com.br/hinos-de-futebol/fluminense-oficial.html

No youtube, várias versões do hino popular:

http://www.youtube.com/results?search_query=Hino+do+Fluminense&oq=Hino+do+Fluminense&gs_l=youtube.3..35i39j0l9.749.6294.0.6601.14.14.0.0.0.0.1009.2689.2j3j2j5-1j0j1.9.0...0.0...1ac.Xl2fjW4moaY

Fontes: artigo TUBINO, Manuel José Gomes; SOUZA, Bruno Castro e VALLADÃO, Rafael. " Uma análise acerca do conteúdo dos hinos oficiais e populares dos principais clubes cariocas de futebol da primeira república ao Estado Novo."  http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/751/75117016010.pdf


(http://www.campeoesdofutebol.com.br/fluminense_hino.html)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Torcida nas Laranjeiras na década de 1920

A torcida tricolor nas Laranjeiras, na década de 1920. 
Abaixo, a foto que inspirou a ilustração acima. 


Duas moças se destacam no meio de um público de futebol, onde o predomínio masculino ainda maior que o de hoje. Na frente, elas parecem mais sorridentes que seus companheiros de arquibancada. Na ilustração procurei destacar ainda mais as moças, combinando seus vestidos nas cores predominantes
da camisa tricolor. 

Nelson, nosso torcedor mais ilustre.

Inspirada em foto clássica de Nelson Rodrigues.

Nelson é um dos nomes mais lembrados no blog cultura tricolor justamente por acreditarmos que ele resume e representa como mais ninguém , a cultura tricolor. O genial escritor, dramaturgo e jornalista comparava, em suas crônicas esportivas,  as emoções do futebol a uma epopeia de um Homero, ou usava romances de Dostoiésvky ou Victor Hugo como referência ou metáfora para histórias da pelota. E o fazia com a mesma naturalidade e humor com que falava em Chacrinha, em chika-bon, com que bebia na cultura popular. Nelson é sem dúvida o nosso trovador maior. Todos as outras torcidas invejam até a raiz do cabelo o nosso Nelson Rodrigues.   


segunda-feira, 23 de julho de 2012

"Nasce o Fluminense"...a perspectiva romântica de Mário Filho

Legenda: 
Texto do Mário Filho, na fonte Courier. Do blog, na Trebuchet.

" Football ? Que vinha a ser "aquilo"? Oscar Cox tentava explicar. Havia um campo. Sim. O ouvinte abria os olhos, procurando ver o campo. Não era difícil imaginar o field. O Clube Brasileiro de Cricket tinha um. A coisa porém, se complicava quando Oscar Cox, balançando a cabeça, dizia que, fora o verde da grama, não existia semelhança alguma entre o campo de cricket e o campo de futebol. O campo de cricket sendo oval, o de futebol, retangular. "Então, dizia o outro, deixando de ver o field do Clube Brasileiro- então eu  não percebo nada". Mário Filho


  
Os fundadores do Fluminense, provavelmente após 1904, 
já com terno tricolor. O primeiro era cinza e branco. 


Mais uma vez fica difícil comprovar até que ponto havia algum exagero no relato de Mário Filho, respaldado apenas pelas lembranças de poucas testemunhas, recortes de jornal de Marcos Carneiro de Mendonça e outros. É também completamente possível que parte da alta aristocracia que, assim como Cox, já tivesse travado contato com o futebol, em viagens à Europa. Também é possível que Mário Filho ignorasse vestígios encontrados posteriormente, que revelem evidências da prática desde fins do século XIX. Longe de  mim querer desvalorizar a deliciosa prosa de Mário Filho,  cujo esforço hercúleo de recontar nuances da história do futebol  já serviu de base como fonte histórica fidedigna. Ao contrário, seu relato ganha mais valor, se percebermos nele mesmo, um vestígio da influência da imprensa na construção da história do futebol. Como extraordinário jornalista que era, interessava-lhe menos a segura veracidade dos relatos, do que, neste caso por exemplo, do caráter dramático e/ou romântico do mito do fundador, do pioneiro, ainda que a História, enquanto ciência se esforce em questionar. Se este herói fundador tiver vencido obstáculos, dificuldades, melhor ainda. O personagem preferido da imprensa: um Hércules e seus 12 trabalhos. O povo gosta de histórias de heróis, que venceram dificuldades e o esporte é um terreno fértil deles. Na crônica de Mário Filho, ele procura reproduzir o irrepetível: o fato ocorrido, com a maior riqueza de detalhes, e ao mesmo tempo, numa linguagem direta, coloquial, aberta ao grande público.  Então, reproduz com a minúcia dos precisos diálogos, Oscar Cox apresentando o futebol a seus amigos. Ao Rio de Janeiro, ou pelo menos, para a alta aristocracia carioca. Vamos à batalha de Cox... 


Football, um novo esporte sem graça?
"Oscar Cox tinha dezessete anos, e acabara de chegar da Suiça. Lá em Lausanne, ele jogava football   pelo Colégio de La Ville. hegando aqui, uma das primeiras coisas que ele queria saber foi"onde se pode jogar football?". Nunca lhe passara pela cabeça que o nome de um "esporte tão conhecido" soasse aos ouvintes de todo mundo- o todo mundo da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro de 97- como um termo misterioso. Quase indecifrável. Quem sabe se mandando buscar uma bola...a ideia encantou Oscar Cox. 

Ele encomendou uma bola Mac Gregor, número seis."

" A bola, porém, não resolvia tudo. Faltava um campo. Faltavam as balizas. Faltavam as redes. Faltavam, os jogadores. E Oscar Cox começou a sentir-se isolado. Mais isolado do que nunca. E agora a impressão que ele experimentava era de fracasso. Às vezes apareciam curiosos. Depois de uns dois chutes, todos paravam, desanimados, achando que o football não tinha nada de engraçado. "Quer saber de uma coisa, Oscar? Desista disso. O football é pau. Cacete como ele só. Não pega.ou você acha que é interessante a gente ficar aqui feito bobo vendo você jogar?" Oscar Cox acabou concordando. Agarrou a bola e levou-a para casa." 



Ilustração de 2009.
Incentivos do pai esportista.
"Como porém, deixar de pensar em football? O velho Emmanuel Cox (...) era o primeiro a animar o filho. Com um exeplo constante de entusiasmo pelo esporte. Fora ele, o velho Jorge Cox, quem tivera a ideia de fundar o Rio Cricket and Atlhetic Association. Parecia impossível, eis a conclusão que chegara Jorge Cox - que não houvesse um clube em Niterói com tanto inglês por perto." Em toda parte do mundo, uma dúzia de ingleses juntos formam um clube. Assim, nasceu em Niterói, o Rio Cricket. E com o Rio Cricket surgia também um campo."
" 'Arranje um team - foi o conselho do velho Jorge Cox a Oscar- e o resto será fácil.' Oscar Cox levou três anos de 98 ao ano primeiro do século XXI, para arranjar um team de football. Só de brasileiros. 
Quem vinha da Europa (...) vinha sabendo um pouco de football. Assim, se foi juntando gente (...)."
O team de brasileiros devia enfrentar um team de ingleses. Qual inglês que não dera um chute numa bola? E aí - era agosto de 1 - bem de manhã cedo, os tenistas do Rio Cricket and Athletic Association tiveram a atenção despertada por umas balizas colocadas nos extremos dos campos de cricket. Eles perguntaram ainda o que era aquilo quando apareceram os jogadores."
Sobre este jogo, a imprensa chegou a se envolver diretamente, referindo-se ao jogo como um Brasil x Inglaterra e aos brasileiros como "nós".  
Enquanto o velho Etchegaray explicava as regras aos tenistas, a bola rolava e Mário Filho vai relatando nuances do confronto. "Uma bola chutada por Caiwood Robinson não fora defendida por Clyto Portela. 'Foi goal - explicou o velho Etchegaray - Goal dos ingleses.' E quando Júlio de Moraes empatou, os tenistas do Rio Cricket compreenderam logo que tinha sido goal também." 





Ao empate com os ingleses, seguiram novos empates com os paulistas, nos primórdios do "Rio-São Paulo".        
  "Que faltava mais? Não bastava jogar aqui e ali, partidas de football. Era preciso mais alguma coisa. Um clube. A ideia do Fluminense (com o nome de Rio Football Club ainda)começava a perturbar as vigílias de Oscar Cox. E ele, um dia, surpreende os amigos com um convite. Quem estivesse de acordo com a fundação de um clube brasileiro de football, deveria comparecer, a hora tal, em tal lugar. E lá compareceu um grupo que se fez de engraçadinho. Oscar Cox deu início à sessão, em tom solene, declarando que, "como todos ali se achavam presentes estavam de acordo com a proposta apresentada"...E uma voz se fez ouvir: "Quem foi que disse que eu estava de acordo? Eu sou contra". O Fluminense teria que esperar, por causa disso, outra oportunidade para nascer."

Curioso destacar aqui a interpretação de Mário Filho, que chega a apresentar os diálogos com precisão de detalhes, atribui apenas a uma gracinha juvenil, a contrariedade de um descontente, sem apurar quem teria sido, quais os seus motivos e muito menos as razões que levavam a sua negativa ter um peso tamanho que inviabilizasse a tão desejada fundação do clube. Mas o episódio, apenas corriqueiro, é usado para reforçar a perseverança de Cox diante das dificuldades. Mas eis que se cumpriria o último obstáculo e no dia 21 de julho de 1902, "os portões da casa de Horácio Costa Santos, que ficava ali na Rua Marquês de Abrantes nº 51, se abriram para a cerimônia de fundação do Fluminense. Lá estavam Horácio Costa Santos, Mario Rocha, Walter Schuback, Felix Frias, Mario Frias, Moutinho, Luiz da Nóbrega Junior, Arthur Gibbons, Virgílio Leite de Oliveira e Silva, Manoel Rios, Américo da Silva Couto, Eurico de Moraes,A. C. Mascarenhas,Alvaro D. Costa, Julio de Moares, A.A. Roberts. E Manoel Rios presidiu a mesa, ladeado por Américo Couto e Oscar Cox. Oscar Cox estava com as mãos frias, de nervoso, e sentia um nó na garganta. Mas era de alegria: o Fluminense deixava de ser um sonho."